Sobre novos termos

Por tantas vezes me faltou palavras pra descrever a razão de estar cercada de grandes amigos, quando inúmeras vezes eu disse a eles “não posso” ou “não tenho tempo”. Justo eu, que sempre achei ter dificuldade em dizer “não”, só agora vejo que para cada “sim” que eu disse nos últimos anos, trouxe um “não” como consequência.

“Vamos sim, fulano!” | “Desculpa, mãe, tenho outra coisa neste sábado”.

A verdade é que sempre faltou tempo principalmente para as pessoas que eu mais amo. Não que eu confie demais do amor e compreensão delas, mas talvez por sempre acreditar que elas mereçam muito mais do que eu posso. Por milagre, sorte, ou por entenderem a minha “frequência afetiva”, elas continuam me amando e me aceitando diante do que eu tenho pra oferecer e, principalmente, diante do que eu não tenho.

O termo “frequência afetiva” veio ontem por inbox – um texto que trouxe um apanhado de momentos se juntando na minha mente como um quebra-cabeça. Não por acaso, o tal texto veio de uma amiga de mais de 10 anos, para quem a minha dedicação nunca foi ou será suficiente, mas com quem eu me lembro de não ter desperdiçado um único encontro sem uma gargalhada alta (mérito dela), nem mesmo nos dias de conversas tristes ou difíceis.

Assim como eu tenho a certeza de não ter dedicado a “frequência afetiva” que eu gostaria pra tanta gente, também tenho comigo que eu não economizei bilhetes, beijos, abraços e palavras de carinho nas poucas oportunidades – foi o jeito que eu encontrei de deixar encontros rápidos, mensagens curtas e telefonemas corridos menos distantes.

À minha família e amigos, eu sempre dedicarei os meus melhores verbos.

[O tal texto aqui]

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12 dias

“Viver uma vida inteira pra ter do que se lembrar”.

Com voz e mãos trêmulas, eu propus isso a ele no altar, e a mim mesma, todos os dias.

Não por acaso, vez ou outra eu visito este blog e clico aleatoriamente em posts antigos pra reviver momentos. Tanta coisa que eu quase esqueci, tanto detalhe que eu quase perdi. Quase.

Antes dos 30, descobri que escrever é o meu melhor jeito de guardar lembranças. Sinto cheiros e gostos de outros anos, vejo gestos e rostos, visito histórias, angústias, tropeços e conquistas. Ler de novo, chorar de novo, viver de novo – antes de morrer, acho que nunca vou me cansar disso.

Faltam 12 dias para o fim desse blog e eu já tenho saudade dessa lista, dessa história e de todas as vezes que eu risquei um item.

No headphone.

Sobre dois olhos

Abri os olhos e vi.

Primeiro, os olhinhos sapecas da Amelie me “pedindo” pra subir na cama. Depois vi a luz do sol iluminando a minha sala. No caminho pro trabalho, vi um rapaz correndo feliz com seus 3 cachorros numa praça qualquer. Vi um motociclista ajudando uma senhora, que estava com o porta-malas de seu carro aberto. Vi meu reflexo no retrovisor.

Não faz tanto tempo eu saía da sala de cinema em silêncio, depois de assistir ao filme adaptado do livro. Mas foi depois de ler as 307 páginas de Ensaio sobre a cegueira que eu digeri, a duras pancadas, a mensagem do autor sobre “a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”.

Daqueles livros que separam a vida da gente em “antes” e “depois”. E fica aqui um relato de dois olhos que, se já eram atentos, agora são, também, diariamente gratos.

Das últimas 2 semanas

Ela segurou minha mão em silêncio e eu me deixei desabar.

Os 4 anos a menos nunca fizeram dela uma mulher menos forte ou menos sensata, e era a mão dela que segurava a minha naquele dia de desespero. Dou esse nome por não saber o que acontecia – se era angústia, medo, cansaço, sobrecarga, solidão, enfim: desespero. E depois daquela noite eu mergulhei em um silêncio que há tempos não experimentava. Ouvir mais, reclamar menos, observar mais, decidir menos.

“Acalma seu coração. Isso é um trabalho diário. Você é amada demais.” 

No caminho pra casa, recebi essa frase no whatsApp. Há pessoas que aparecem como anjos em dias assim.

“Viaja comigo?”

Eu falava de anjos quando essa pergunta me apareceu e soou mais como um “Deixa eu te tirar daqui?”. Eu aceitei. As viagens com ele sempre me deixaram bem e Cartagena era um roteiro que estava na nossa lista há tempos.

Tempo pra falar de mim, dele, de nós. Tempo pra ficar à toa, pra andar sem destino, pra embriagar, pra mergulhar, pra comer e não gostar, pra descobrir uma limonada nova. Tempo pra desacelerar e aquietar a mente que não sabe mais fazer isso sozinha.

Eu tive tempo. Hoje, especialmente, tive tempo até pra ansiedade de não fazer nada. Eu já não sabia mais o que era “fazer nada”, e nem sei se gosto, rs.

A 30 dias dos 30, eu me lembrei das últimas 2 semanas com alívio. Foram duras, intensas e chorosas, mas chegaram ao fim com o primeiro pôr-do-sol de Cartagena. Um momento, aliás, que ainda vai ser muito lembrado, mas isso é história para um novo post, ou um novo blog, quem sabe.