Desses últimos dias

Eu já entendi.

É acordar e fingir um outro começo de dia. É encontrar pedaços de memórias na rua, no programa de TV, no móvel da sala, no tempero do arroz, no cheiro da toalha. É tentar ler alguma coisa e se perder revendo histórias no teto do quarto. É não ignorar a cadeira vazia. É não se acostumar com 1 escova, 1 prato, 1 par de chinelos. É não se conformar com a ausência. É não ser inteiro.

Saudade é isso.
Saudade é o nome desses últimos dias.

Apenas thinking out loud.

Advertisements

A poltrona preta

Parei diante da poltrona preta por alguns minutos.

FullSizeRenderEla foi herdada da casa da minha mãe e eu estava esperando o momento (leia-se dinheiro) para conseguir reformá-la.

A princípio, a poltrona foi colocada ali, no canto da sala, pra ser nosso canto de leitura. Há poucos meses, quando nos perguntaram qual era o lugar preferido da casa, a resposta veio bem rápido: era ela.

Pensei na reforma. Mudaria a cor? Não. O tecido? Também não. Acrescentaria duas almofadas, talvez, só pra ver o Igor desarrumar tudo e deixar as coisas como ele gosta: dois controles da TV de um lado, o controle da GVT e do videogame do outro.

Continuei olhando enquanto a Amelie subia pra brincar com um osso (talvez por isso estivesse precisando tanto de uma reforma!), e fechei os olhos pra me lembrar de como aquele pequeno pedaço da minha casa tinha ficado tão grande, tão cheio de memórias.

É lá, sobre o fundo preto, macio e desgastado, que o colo dele recebe meus choros, minhas manhas e brincadeiras, e acolhe cheio de carinho as duas meninas da casa – Amelie e eu – num abraço único e delicioso.

Era pra ser só uma poltrona preta. Mas eu prefiro chamar de “pequeno pedaço de paraíso”.

Sobre saltos e baixos

20 saltos sobre a caixa de madeira. Um segundo de descuido, um tornozelo virado, uma semana de bota ortopédica, 5 semanas de inchaço.

Desde então, eu troquei o salto alto pelos pés no chão. E sem opção, decidi cuidar de mim e de todas as coisas que estavam pendentes.

Um novo emprego a caminho, uma nova rotina (com Amelie!), uma nova postura pra enxergar as coisas, um novo jeito de lidar com a minha ansiedade. Mais orações, mais móveis pra minha casa, mais música, mais almoços com a minha família, mais receitas pra receber amigos, mais tempo pra dormir e um feriado inteiro em casa, com ele.

Um longo mês de fevereiro chegou ao fim com a reviravolta lenta, silenciosa e intensa que precisava acontecer.

Agora chego ao mês de março me arriscando em saltos altos, com a tarefa de manter o coração em paz e os pés andando mais devagar.